Texto original em alemão: http://www.arminia.at/dermrz.htm

 

A Origem do Sobrenome Naderer

 

Resumo

 

Quando a Revolução Francesa de 1830 ainda estava viva na memória, governos de outros países europeus tinham medo de revolução. Qualquer iniciativa popular ou idéia de mudança era suspeita de ser um movimento revolucionário. Especialmente na Áustria, onde o Imperador Francisco I governava de forma despótica. O governo trabalhava com um serviço secreto de informação, uma forma precursora do atual “serviço de inteligência”. Os seus agentes eram os “Naderer” (espiões ou delatores). O termo não tem sentido pejorativo. Eles eram agentes a serviço do governo. O que o governo fazia com as informações não era problema deles. O período anterior à Revolução de Viena, de 1815 a 1848, foi um exemplo histórico de mau uso do serviço de informação para fins de repressão e censura. Os espiões deviam informar o governo sobre focos de idéias revolucionárias, principalmente entre os universitários.

.        O termo “Naderer” não foi criado naquela época; já existia. A origem da palavra “Naderer” está ligada à própria história da língua alemã. Há indícios de que primeiro existiu a forma simples “Nader” e mais tarde foi acrescentada a duplicação da sílaba final “er” para formar “Naderer”. Com tudo que já descobrimos, ainda restam algumas incógnitas: quando surgiu a forma simples “Nader”, quando foi acrescentada a duplicação da sílaba final e quando o termo caiu em desuso como designação funcional e se transformou em sobrenome. As pesquisas continuam. 

 

 

O Março chegou

 

A situação interna no período anterior ao março *)

 

 

A Áustria saiu da Segunda Paz de Paris mais gloriosa e poderosa do que se podia esperar. No entanto, as guerras antecedentes haviam desmoronado a fazenda pública e destruído a prosperidade do povo, o qual ainda não se havia restabelecido da quebra dos Bancos de 1811, que tinha levado centenas de milhares à condição de mendigos.

O Imperador Francisco I dominava de forma absoluta e considerava até uma petição das classes**) de Salzburgo por alívio dos impostos face à morte por fome de numerosas pessoas   em  plena  rua  como  arrogância  que teve     como    conseqüência    a    “indignação máxima“ do imperador em  relação  às  classes de Salzburgo por causa de sua “ousadia“.

De  fato,  as  classes   praticamente  não  tinham  direitos.  O  imperador   permitia-lhes comparecerem uma vez ao ano, uniformizados, a uma assembléia na qual os impostos com valores fixos lhes eram apresentados por Gien e os quais em seguida tinham que aprovar com a máxima subserviência e por unanimidade.

 

*)  A revolução de março de 1848  ocorreu  simultaneamente  em  quatro  cidades:  Berlim,  Frankfurt,

Munique e Viena. Por ter ocorrido em março,  ficou conhecida como “o março“ e o  período “anterior ao março“ é o período que antecede a Revolução de Viena (1815 a 1848).

 

**)  Naquela época, as classes (a nobreza, o clero, a burguesia, os artesãos, os camponeses e,  por  fim, 

o proletariado industrial) tinham, por meio de seus representantes, uma certa participação, embora

limitada, nas  decisões  administrativas  do  governo,  direitos  esses  que  por  vezes  se  tornavam

teóricos e não eram exercidos na prática.

O governo do Imperador Francisco também não tinha nem sequer tentado gerar uma idéia de estado austríaco e despertar uma consciência de comunidade de interesses entre as diversas nacionalidades. A tendência do sistema era muito mais manter irrestritos os direitos de soberania. Diante disso, a configuração do futuro do estado, a prosperidade dos súditos e a regulamentação da fazenda pública tinham que recuar.

A Revolução Francesa deixou seqüelas tão violentas no emocional do imperador que este não só intervinha contra todas as inovações revolucionárias mas também contra todas as reformas porque, achava ele, estas poderiam incentivar correntes revolucionárias. Cada revolução na Europa era considerada agressão ao próprio governo e foram enviadas tropas e investido dinheiro para restabelecer a ordem estatal destituída em Nápoles, Sardenha e Espanha.

A Áustria, por intermédio de seu Ministro das Relações Exteriores, o Príncipe Metternich, contrariava em toda a Europa as tendências de introduzir constituições. A Revolução Francesa de 1830, que depois provocou a reviravolta na Bélgica, elevou ao trono pela primeira vez um regente que regia não pela graça de Deus mas pela graça do povo. Para o Imperador Francisco isso foi um profundo choque que o levou a consolidar o estado policial e a mandar baixar decretos no Parlamento Federal Alemão, pelos quais a atividade de uniões representativas constitucionais foi interrompida.

Associações, assembléias do povo, festas populares, emblemas políticos – tudo foi proibido. Estudantes não podiam freqüentar a Universidade de Zurique, que seguia uma linha democrática. Na própria Áustria, as escolas de ensino médio e universidades haviam degradado para meros estabelecimentos de formação de funcionários públicos.  O próprio Imperador Francisco havia declarado perante professores universitários que a tarefa deles seria recrutar cidadãos corretos. Mas quem lhe viesse com novas idéias, poderia ir ou ele mesmo o afastaria.

As novas idéias também eram mantidas à distância por meio da censura prévia. O conde Sedlnitzky, tanto inábil como desleal, na função de chefe do Departamento de Polícia e Censura da Corte, estendeu pelo país uma rede paralisante de espionagem e censura. Seus espiões eram chamados „Naderer“ (delatores); eles bisbilhotavam em bares e na rua. O credo de Sedlnitzky era „que um povo, a partir do momento em que começa a  praticar livre-pensamento, a adquirir erudição, se encontra no primeiro estágio da revolução.“

Em questões religiosas, o Imperador Francisco I era tão intolerante que, ainda em 1834 – um ano antes de sua morte – obrigou várias centenas de protestantes do Zillertal a emigrar para a Silésia Prussiana, quando eles aderiram ao protestantismo e queriam invocar para tanto o edito de tolerância do Imperador José II.

Mas antes de mais nada, o Imperador Francisco era um burocrata, que cuidava dos mínimos detalhes da administração interna e dizia de si mesmo lisonjeando „que ele certamente seria um idôneo conselheiro da corte.“

No dia 2 de março de 1835 Francisco I morreu. Seu sucessor passou a ser o Fernando, ligeiramente débil mental, devido à sua deficiência mental também chamado “o bondoso“. Na  política interna nada mudou para melhor. O imperador era mentalmente incapaz para reformas e seu ambiente também só queria manter o sistema existente. Os negócios concretos eram dirigidos por um Conselho de Conferência, constando do príncipe e chanceler de estado Klemens Wenzel Lothar  Metternich,  do  arquiduque  Ludwig,  um  homem  tanto  frio  como reacionário, e o conde Kolowrat. Este último era um  idealista  que  servia  sem  remuneração.

 

Ele era propenso a reformas e adversário exasperado do sistema de repressão da política interna. Ele não pôde, porém, fazer-se valer contra a linha dominante.

            A associação aduaneira, exigida pelo economista político alemão List, não chegou a realizar-se porque a Corte de Viena receava que a união econômico-política com o restante da Alemanha causaria uma mudança de sistema na Áustria. Preferia-se arcar com desvantagens econômicas.

            Em 1844 List chegou a Viena e, num banquete oferecido em sua honra na Associação das Indústrias e Profissões, fez um discurso no qual colocou em destaque o lado nacional alemão do projeto da associação aduaneira. O que arrancou um furacão de aplausos foram suas palavras finais: “Alemanha – em ciência e arte, em literatura e moralidade, uma estrela de primeira grandeza entre as nações da Terra – Alemanha, destinada por seus recursos naturais, pela habilidade de seus povos e por uma sábia política comercial a tornar-se o país mais rico do continente europeu – Alemanha, chamada por unidade e desenvolvimento interno à elevada posição de ser um dos primeiros garantes da paz européia – Alemanha, nossa grande e bela, nossa pátria comum e amada, viva a unidade alemã!“

            Na Alemanha, Itália e Hungria já fervilhava. Em Viena, o genial poeta popular Johann Nestroy ironizava a situação. Tornou-se um centro da resistência intelectual a “Associação Jurídico-Política de Leitura” de Viena, a qual fora fundada em 1842  por cidadãos liberais e professores universitários e da qual o chefe de polícia Sedlnitzky dizia que ela seria “o foco da revolução” e que seus membros “de tanto ler vão acabar se tornando criminosos”. A associação tornou-se um ponto de encontro de círculos eruditos, dos diplomatas, dos correspondentes de jornais estrangeiros, militares, do funcionalismo público e da universidade. Animados pelos procedimentos na Associação de Leitura, cada vez mais professores e docentes na universidade começavam a demonstrar resistência contra o sistema.

Enquanto as camadas eruditas cada vez mais pressionavam para uma mudança das condições existentes, os anos de fome de 1846 e 1847, provocados por más colheitas, criavam um estado de ânimo perigoso no meio do recém-surgido proletariado industrial. Acrescia uma miserável situação econômica, causada pelo déficit da balança comercial.

 

Os Estudantes

 

            Os teólogos evangélicos que estudavam nos estados protestantes da Alemanha, provenientes de Siebenbürgen e Hungria, logo após a fundação da União Alemã de Estudantes em 1815,  filiavam-se a uniões estudantis e traziam sua ideologia para a Áustria. Em Viena surgiram tais uniões, no jargão policial denominadas “sociedades de comércio”.

 

Também príncipes e condes austríacos que estudaram na Alemanha, haviam-se tornado membros de uniões de estudantes.

            A primeira União de Estudantes em Viena havia sido fundada por saxões de Siebenbürgen. No ano de 1820, 55 membros de uma “união de estudantes em germinação”, que já usava o lema “honra, liberdade, pátria”, foram desalojados pela polícia. Entre eles encontravam-se o  poeta tirolês Johann Senn e aristocratas, filhos de funcionários públicos e candidatos a oficial.

            Com o círculo desses membros de uniões de estudantes, no período anterior ao março, mantinha estreito contato o círculo de amigos em torno de Franz Schubert e ele próprio. Quando Senn, membro da União de Estudantes anterior ao março, foi preso em 1820, o  Franz Schubert, que se encontrava com ele, soltou “xingas e injúrias verbais” contra a polícia, conforme o imperial delegado-chefe de polícia Ferstl anotou em seu relatório.

            Por estudantes de Salzburgo foi fundada em 1843 em Viena a Associação de Estudantes “literária” “Iduna” e, em 1844, a União de Estudantes “Arminia”, declaradamente política. Em 1845 seguiu-se a “Helikia”, em 1846 a União de Estudantes “Liberalia”.  Até o março, as uniões de estudantes haviam aumentado até o total de 9.

            Os membros dessas uniões tinham que “preparar-se para a luta iminente pela unidade da  Alemanha”. Sendo que cada vez mais estudantes se filiavam às uniões, alguma informação dali vazou para a polícia e esta tentou desmantelar uma corporação  dessas num Café. No entanto, os agentes foram derrubados no chão com pancadaria e os estudantes escaparam.

            Em estreita ligação com os círculos de uniões estudantis estavam os alunos da Escola Politécnica Superior. Esses jovens entusiasmados pela causa da liberdade alemã, participaram praticamente sem exceção nos dias de assalto de março como batalhadores e entraram em peso na Legião Acadêmica, a qual logo mais se adornava com as cores alemãs preto-vermelho-ouro.

 

(Heinrich Reschauer: “Das Jahr 1848 – Geschichte der Wiener Revolution” (O Ano de 1848 – História da Revolução de Viena), vol. I, Viena 1872, p. 68 s; bem como: Franz Gall: “Alma Mater Rudolphina”, Viena 1965, p. 173 ss; bem como: Hans Berner: “Schwarzrotgoldene Schubertiade”, Munique 1959)

 

 

Kossuth – O Prenúncio do Assalto

 

            A revolução francesa de fevereiro de 1848 atuou como primeiro sopro vitalizante no silêncio antes do assalto. A notícia foi discutida com máxima vivacidade, tanto na Associação de Leitura como na Associação de Indústrias e Profissões. Apareceram os primeiros folhetos que anunciavam que também na Áustria umas quantas coisas teriam que mudar.

            No dia 29 de fevereiro, causou enorme espalhafato um cartaz colado à Porta de Kärnten, no qual estava escrito: “Em um mês o Príncipe Metternich estará deposto. Viva a Áustria constitucional!”

            Então Ludwig Kossuth colocou um fanal. No dia 3 de março de 1848, o líder da oposição proferiu um discurso perante o Parlamento do Reich húngaro, em Pressburgo,  discurso este que, como um toque de fanfarra, anunciava a sucumbência do velho regime. Kossuth disse: “Sobre nós está a pesada maldição de uma fumaça asfixiante. Do ossário do sistema vienense sopra para nós um ar empesteado que paralisa os nossos nervos, prende o nosso vôo mental.” Kossuth exigia sem rodeios a introdução de instituições constitucionais.

            Em Viena, o seu discurso tornou-se conhecido por meio de jornais húngaro-alemães contrabandeados e causou enorme impressão. Em restaurantes e cafés o discurso era lido em extratos, seguindo-se acalorados debates, transformando-se os locais em clubes políticos.

No dia 4 de março de 1848, apareceu um manifesto revolucionário, no qual se expressava a convocação para “aderir à grande união dos homens alemães livres” e: “Trata-se de uma luta de vida e morte. Sejam fortes, corajosos e unidos!”

Então o governo e a corte imperial foram abastecidos com memorandos e petições, nos quais eram exigidos direitos civis, abolição da censura e armamento do povo.

 

A União de Estudantes desencadeia a Revolução

 

     

O líder da União de Estudantes subversiva Arminia, o estudante de medicina Fritsch, no uniforme da Legião Acadêmica Revolucionária de Viena, com a faixa preta-vermelha-ouro, as cores da União de Estudantes,  envolvendo o peito.

 

O que deu o último e definitivo ensejo para disparar a revolução de março foi a petição dos estudantes, que foi elaborada por membros da União de Estudantes  Arminia,  do  período

anterior ao março, .e da União de Estudantes Liberalia. O encontro foi na residência do líder da Arminia Fritsch, na Mariannengasse 19, a qual  ele  dividia  com  seus  companheiros  de  corporação Spängler e Portenschlag. Estavam presentes mais dois da Arminia e o escritor Loeser. Discutiu-se uma primeira minuta. No outro dia, aos 8 de março de 1848, encontraram-se novamente, em maior número, trazendo Loeser para o  encontro  cinco  juristas  conhecidos

dele, porque deviam entrar no debate também questões de direito constitucional.

            (Heinrich Reschauer relata sobre isso em seu livro “O Ano de 1848 – História da Revolução de Viena”: “Quando Loeser entrou com seus cinco juristas, ofereceu-se-lhes um quadro singular. Mais de 50 retratos de estudantes alemães, que Fritsch havia trazido para casa de suas visitas em universidades e uma quantidade de espadas, sabres, bonés, cachimbos de estudantes etc. estavam pendurados nas paredes da residência decorada de forma original e cerca de 40 homens jovens de todas as partes da Áustria estavam reunidos na mesma, com o propósito de fazer acontecer o desgrilhoamento, a elevação da pátria. Eles eram, observa Loeser, um resto desapercebido daquela corporação de estudantes que há tantos anos se perseguia tão avidamente e acreditava extinguir desde a raiz. Tinham-se, na verdade, as circunstâncias do tempo a seu favor; no entanto ainda nenhum, nem o mais ousado, atrevia-se a esperar o que pouco depois se alcançou: a deposição de Metternich, armamento do povo, liberdade de imprensa, constituição!”

            Os conjurados das uniões de estudantes mandaram alguns membros da Arminia e Liberalia para as vielas próximas, para que pudessem ser alertados em caso de um assalto policial;  então, sob a presidência do líder da Arminia Fritsch, passou-se à deliberação. As exigências, colocadas por escrito, eram:

            Liberdade de imprensa e expressão, liberdade de ensino e aprendizagem, igualdade dos adeptos de diferentes credos nos direitos civis, caráter público e autonomia do processo judicial, representação geral do povo e representação das partes estaduais alemãs na União alemã.

            Da petição foi feita imediatamente uma quantidade de cópias e divulgada entre os estudantes, visto que se pretendia mandar proceder a uma votação sobre a petição no dia 12 de março no auditório da universidade. No dia 11 de março houve outra reunião na residência do líder da Arminia Fritsch, para a redação final do texto. Tinha-se consciência que se tratava de tudo ou nada e contava-se com a prisão logo que a petição tivesse sido entregue na corte imperial. Loeser disse aos conjurados: “Amigos! Considerem nossa honra perante à Alemanha ... Antes de deliberarmos uma missiva subserviente, melhor nenhuma. Todos que se apavoram, apavoram-se porque ignoram o tempo. Eles ainda vêem a glória do estado policial em pleno brilho. Mas este sistema tem que cair, e mesmo que levem também a nós até a fortificação, em pouco tempo estaremos libertados. Arrisquemos tudo! ... Deixemos as coisas acontecerem! Se não encontrarmos apoio, então que tudo caia!”

            (Heinrich Reschauer, l. c., pp. 146 ss)

            O governo tomou conhecimento de movimentos revolucionários e mandou equipar a milícia com forte munição. Tropas foram colocadas no centro da cidade e no castelo da corte. No dia 12 de março, o sacerdote católico e professor Dr. Anton Füster fez um sermão na igreja da universidade e falou das obrigações que cada um tinha a cumprir com relação ao seu próximo, com relação ao seu povo e pátria. “Pela pátria nenhum sacrifício vos deve ser grande demais!”

            Após o sermão os estudantes reuniram-se no salão superlotado da universidade. O ânimo havia chegado ao ponto de ebulição; receava-se um assalto da milícia.

            O estudante de direito e membro da Arminia Heinrich Fessel abriu caminho e subiu à cátedra. Com voz amplamente audível, porém trêmula de constrangimento, ele comunicou que de numerosos estudantes ele havia recebido a incumbência de apresentar aos alunos da universidade e da escola politécnica uma petição dirigida ao imperador, para assinatura. “A pátria”, exclamou o jovem orador, “está em perigo e na juventude estudantil de Viena toda e qualquer centelha de sentimento de honra e amor à pátria teria que estar apagada se ela pudesse omitir-se a dar expressão aos seus pensamentos e sentimentos num momento como este, decisivo para o futuro.”

Seguiu-se veemente aplauso e Fessel leu então a petição, cujas frases individuais foram recebidas com júbilo. “Nós a assinamos!” ... “Uma mesa para cá!” ... “Um covarde quem lhe recusar sua assinatura!”

Os professores Endlicher e Hye assumiram o encargo de entregar a petição ao imperador. (Heinrich Reschauer, l. c., p. 160)

A notícia dos procedimentos na universidade passou voando pela cidade e todo mundo aguardava com tensão os ulteriores acontecimentos.

No castelo da corte igualmente dominava tensão e irritação. o arquiduque Ludwig, superreacionário, manifestou-se imediatamente a favor de declarar o estado de sítio sobre Viena  e aplicar a lei marcial para os autores de “memoriais e petições de alta traição” e  também já tinha uma lista preparada com os nomes de numerosos cidadãos e estudantes que deveriam ser processados. Nessa situação os professores Hye e Endlicher chegaram ao castelo da corte com a petição dos estudantes. O imperador recebeu a petição e observou: “Vou ponderar sobre o assunto.” Com um gesto de mão os dois professores estavam dispensados.

No dia 13 de março a universidade estava cheia de agitação. Na sala de aula de estatística um desconhecido havia afixado uma proclamação revolucionária, na qual Metternich e Sedlnitzky eram acusados de alta traição contra o príncipe e a pátria. “Vamos, irmãos! Abaixo com eles, quem tem reta intenção com a Áustria!”

Numa outra sala de aula estava escrita em letras garrafais a palavra constituição. Os estudantes dirigiam-se apressados para o auditório, para receber notícia do professor Hye sobre a audiência com o imperador. O ânimo revolucionário estava no ar. O professor de física Kunzek tentava inutilmente reter os estudantes. Reschauer nos transmite o relato do sacerdote católico, amigo da liberdade e futuro capelão da Legião Acadêmica, Professor Dr. Anton Füster: “Ele (Professor Kunzek) tinha sido professor por muitos anos em Lemberg, tinha visto o triste destino dos estudantes poloneses que tinham participado da revolução; ele viu seus próprios amados alunos, como eram acorrentados e arrastados para a prisão. Ele não podia imaginar que, com a onipotência do governo, uma revolução pudesse dar certo, o triste destino dos estudantes aparecia-lhe diante dos olhos conforme o quadro que ele tinha visto em Lemberg e ele estava tão perturbado que chorou amargamente. Os jovens tinham respeito por esse homem idoso e filantrópico,  ouviam tranqüilamente a sua descrição do destino dos estudantes poloneses, mas não se deixavam dissuadir de seus propósitos.”

Em ministrar aulas nem se podia pensar. Por volta das 9 horas apareceu o Professor Hye e comunicou a um auditório fervilhante a resposta do imperador, de que ele queria levar em consideração as exigências dos estudantes. “Em poucos dias vocês vão receber  a  resposta imperial!” “Nós não esperamos mais nem uma hora!” ressoou ao seu encontro. “Os nossos desejos são os desejos do povo e estes têm que ser realizados rapidamente!”

“Agora é hora das classes agirem, apresentaremos a elas os desejos do povo pessoalmente!”

Com as mãos levantadas, o Professor Hye pediu aos estudantes não irem à Casa dos Representantes. A resposta ressoou ao encontro: “Casa dos Representantes! Para a Casa dos Representantes!”

A revolução tinha começado.

           

A Revolta

 

Na praça da universidade os estudantes recebiam forte afluxo  de colegas de todos os prédios secundários da universidade e das ruas laterais. Logo movimentava-se um enorme cortejo, ao qual se juntavam numerosos cidadãos, em direção à Casa dos Representantes. No pátio da Casa dos Representantes, a multidão sem liderança estava indecisa sobre o que mais deveria acontecer. O médico auxiliar judeu do Hospital Geral, Dr. Fischhof, encontrava-se entre as pessoas porque tinha ouvido que os estudantes estariam manifestando o seu descontentamento com o sistema. Fischhof contou mais tarde: “Pensei comigo que um momento tão propício para o povo, que ainda não existiu  igual na Áustria, não deveria passar inaproveitado. Achei miserável que nessa grande multidão não se encontrasse um homem que tivesse a coragem e a força de arremessar para a mesma uma palavra inflamadora para dar expressão entusiástica à alta importância histórica do momento e arrastar essa massa curiosa para uma grande manifestação. Não é você mesmo um miserável desse?, disse eu para mim. Profundamente envergonhado, tomei logo a decisão de falar ...” (Heinrich Reschauer: l. c., p. 182)

            Fischhof fez-se ouvir, foi levantado sobre os ombros de estudantes e fez ressoar em alta voz a primeira palavra livre na Áustria.. Ele estimulou a multidão a mover, por fortes chamados e gestos, os representantes das classes, reunidos na Casa dos Representantes, a agirem perante o governo. “Nós temos hoje uma missão séria a cumprir. É levar a mão ao coração e perseverar com decisão e coragem. Quem neste dia não tem coragem, tem o seu lugar na sala de crianças!” Fischhof gritou para a multidão as exigências dos estudantes: “Liberdade de imprensa, liberdade de religião, liberdade de ensino e aprendizagem, ministros responsáveis, representação do povo, armamento do povo, anexação à Alemanha!”

            Fischhof gritou: “A espada de Dámocles da polícia paira sobre a minha cabeça, mas eu digo como em Hutten: Eu arrisquei, eu sou o Dr. Fischhof.”

            Então o Dr. Fischhof dirigiu-se para a sala dos representantes, onde os amedrontados membros das classes esperavam perplexos. Fischhof explicou que o povo estava afim de apoiar as classes na luta pelos direitos do povo e que agora as classes estariam sendo chamadas a agir. A multidão de pessoas no pátio da Casa dos Representantes apoiava essa exigência em alta voz. O conde Colloredo tentou acalmar a multidão no pátio a partir de um terraço. Mas ele não pôde falar até o fim. Já haviam penetrado estudantes no Parlamento. Uma testemunha ocular relata: “Foi interessante ver que, durante o discurso do conde, um estudante se postou bem ao lado dele, com casaco de veludo e boné de estudante alemão, observando bem quieto a movimentação no pátio.”

            (Heinrich Reschauer: l. c., p. 210)

            No pátio, entretanto, oradores estudantis haviam tomado a palavra. Em alta voz exigia-se a deposição do governo, a deposição de Metternich. Uma delegação de estudantes dirigiu-se para dentro da Casa dos Representantes e constituiu uma comissão de revolução, sob a presidência do jurista Stöber e do médico Schlesinger, o qual imediatamente requisitou ao magistrado a mobilização da Guarda Civil. Isso foi recusado. Então a comissão enviou seus mensageiros para todas as partes da cidade, para atuarem ali como oradores e mobilizarem a população.  Logo centenas de operários dos subúrbios se haviam juntado aos estudantes e cidadãos.

 

Os mártires

            Agora, vindos de Freyung, milicianos avançaram contra a Casa dos Representantes e contra a multidão de pessoas reunida na Herrengasse. Crepitou uma rajada, em seguida os soldados avançaram com a baioneta. 5 caíram mortos no local, entre os quais o estudante judeu Spitzer, a quem a primeira bala mortal acertou. A notícia do sangue de cidadãos derramado propagou-se como rastilho de pólvora por toda a cidade. Em todas as ruas irrompiam agora as lutas, o povo agredia os soldados com pedras, estacas, bastões e machados. Em toda a cidade  havia vítimas de sangue, quando os dragões avançavam contra o povo com a lâmina desembainhada. Então ressoou em toda a Viena o grito por armas: “Para o arsenal!”

            A milícia mandou assestar canhões. Tornou-se um herói da revolução o chefe de fogos de artifício Pollet, que se recusou a disparar os seus canhões contra o povo por ordem do arquiduque Maximiliano e até se colocou na frente do cano da peça de artilharia quando o arquiduque tentou mover os outros canhoneiros a disparar os canhões. Essa bateria não disparou contra o povo.

            Na Universidade, as quatro Faculdades de Medicina, de Direito, de Técnica e de Filosofia já instalaram uma organização militar, que foi dividida em 4 departamentos e tropas de 10 homens cada.

 

 

A Vitória

            Na noite de 13 de março, tornaram-se conhecidas a demissão    e a fuga de Metternich e um estupendo júbilo encheu a  universidade. Adquiria-se confiança. O grito de assaltar o arsenal tornou-se cada vez mais alto no auditório. Às oito e meia da noite, os estudantes marcharam para o arsenal vigiado pela Milícia Civil. A Milícia Civil irmanou-se com os estudantes e  estes entraram e se armaram.  Com tochas fumegantes na Praça dos Judeus, inscreviam-se nas listas da Legião Acadêmica.

 

A cidade inteira estava então iluminada festivamente, a Viena inteira envolvida no arrebatamento de alegria pela deposição de Metternich. A milícia mantinha-se quieta.


           No dia 14 de março, o poder em Viena já havia passado em grande parte para as mãos dos revolucionários, a Legião Acadêmica e uma nova Guarda Nacional foram constituídas, sendo que esta última também ajudou a evitar excessos e saques pelos operários famintos.

            Os estudantes marcharam para o castelo imperial, seguidos por milhares de guardas nacionais, entretanto armados. “Liberdade de imprensa! Constituição!” ecoou o grito de milhares para as janelas do castelo da corte sitiado. Na noite de 14 de março o governo capitulou parcialmente: A liberdade de imprensa estava concedida. No dia 15 de março o imperador prometeu introduzir na Áustria uma constituição liberal.

            No dia 16 de março, Viena oferecia um quadro pacífico. Nesse dia também o chefe de censura e polícia, o conde Sedlnitzky, foi demitido. Viena nadava  num delírio de alegria. O imperador saiu pelas ruas em coche aberto e os vienenses festejaram a vitória com um desfile da Guarda Nacional e da Legião Acadêmica, dando um “viva” ao imperador.

            No dia 20 de março efetuou-se a anistia imperial de todos os presos políticos.

 

A Legião Acadêmica

            A Legião Acadêmica, surgida da revolta, já contava com muito mais estudantes do que os filiados às uniões estudantis do período anterior ao março e seus círculos de amigos mais achegados. A Legião aumentou para cerca de 5.000 homens, em 4 Corpos e 32 Companhias. Aos Corpos de Juristas, Médicos, Filósofos e Técnicos acrescentou-se também a Academia de Belas Artes. Os legionários usavam o “chapéu alemão” com pena  preta e cocar alemão, sobre o capote de uniforme azul traziam as cores alemãs. Seu quartel general eles tinham no auditório da universidade, que foi convertido em quartel. No auditório estavam penduradas suas bandeiras em preto-vermelho-ouro, mas também as cores das nacionalidades não alemãs do reino de Habsburgo, que lhes foram entregues por delegações em sinal de solidariedade.

            A testemunha da época, na função de cronista, relatou sobre a Legião: “Não contentes por terem conquistado a liberdade para a  Áustria, ales investem agora o seu orgulho também para conservá-la.: Sempre atentos a um “Cuidado!”, em contínua desavença com os inimigos da liberdade, como incansável vanguarda em relação ao exército imperial de oposição.

            Foi também a Legião Acadêmica que inflamou a consciência alemã de Viena até o entusiasmo. Ela foi o guarda-costas da questão alemã; para esta ela tinha os mais elegantes arautos, os mais corajosos lutadores, os mais entusiasmados cantores. Do seu acampamento,   ‘O que é a pátria do alemão?’ soava por toda a Viena e prados da Áustria. À pergunta da canção ela só conhecia uma resposta: ‘A Alemanha inteira deve ser’.” (Moritz Smets: “O Ano de 1848 – História da Revolução de Viena”, vol. 2, p. 24 s)

            Nessa intenção, foi também criada em Viena a estrutura  para uma assembléia nacional de toda a Alemanha.

 

Traduzido por: Vicente Naderer                                                                               04/06/2002